John Van der Sluis

Certo dia um holandês de raízes tailandesas foi apresentado ao Vertinho, em João Monlevade, por amigos comuns. O motivo da aproximação era o gosto por motos. John era seu nome! “Descupe meu português. Aprendi português na rua. Eu sou holandês, mas meu coração é brasileiro”. A simplicidade de John, a paixão pelo Brasil e por tudo que é brasileiro, foi fazendo com que pouco a pouco sua roda de amigos motociclistas aumentasse. Ele se tornou um membro de honra do O Tempo e o Vento.
John passou pelas augruras da 2ª Guerra Mundial. Vivendo próximo da Alemanha e tendo traços orientais, passou parte de sua vida preso no Japão. Parte de família foi dizimada. Mas isso não lhe tirou a alegria de viver. Em 1958 veio ao Brasil pela primeira vez. Passou pelo Rio de Janeiro e morou alguns meses em Belo Horizonte. Mas foi em João Monlevade, trabalhando na então Belgo Mineira, que seu coração se abrasileirou. Voltou para a Europa 2 anos depois, mas não esqueceu o Brasil. O dinheiro que recebeu de indenizações do governo pelos sofrimentos na 2ª Guerra lhe possibilitou voltar outras vezes à terra que queria adotar como terra mãe. Na década de 80, em nova vinda para o Brasil, uniu-se ao amor de sua vida. Levou para a Holanda uma monlevadense, Margareth Furtado, com quem casou-se e teve uma filha, chamada Letícia – nome também brasileiro.
John sempre ficou ligado aos seus amigos do Brasil pelo telefone e pelo serviço postal. Generosamente, ele nos mandava cartas, retratos e postais de tulipas de Amsterdã. Era uma forma de estar sempre entre nós. Quando na Holanda os termômetros apontavam graus negativos, John precisava saber como estava o clima no Brasil. Em dias de neve ele fazia bonecos de neve junto com a filha e o genro, e tirava fotografias para enviar para os amigos do Brasil. John nunca foi embora de verdade, porque se fazia presente de todas essas formas.
Até que um dia, no telefone contou uma história diferente: precisava contar aos amigos do Brasil que tinha um câncer de próstata. Mas ao mesmo tempo dizia: “Eu tenho câncer! Mas eu não morro de câncer! E quando sarar vou de novo ao Brasil.”

Mas a vida tem suas regras e a vida sempre vai vencer. Apesar da esperança e da alegria, o câncer continuava a dilacerar os órgãos internos de John. Os telefonemas, com a mesma ternura, atualizavam o seu quadro clínico.
O câncer se espalhou pelo pâncreas. Foi tomando John pouco a pouco. Mas ele alimentava a esperança da cura, da volta ao Brasil e ainda conseguia autorização médica para participar dos eventos da Harley. Foram 3 anos de muita dor e tolerância. Um reumatismo foi lhe tirando as forças para escrever. As cartas continuavam, porém, menores e com as letras trêmulas. E um pedido de desculpa por sentir dor e não aguentar escrever mais. Longe é um lugar que não existe.
John se fez imortal dentro daqueles que o conheceram e aprenderam a respeitá-lo. É possível sentir sua presença, o seu sorriso e ouvir a sua voz: “Aqui na Holanda tem mandioca, mas não é gostosa como a do Brasil. E é muito cara!” “Desculpe o meu português, aprendi na rua!”
John, o motociclista mais sensível, mais brasileiro que já conhecemos. Faleceu em maio deste ano. Resistiu por 3 dias, mesmo tendo já tendo todos os aparelhos desligados. Apenas respirava e ainda sonhava se curar e voltar ao Brasil!
John Van Der Sluis!
Uma lição de ternura, de paz e de muito amor!